Há pessoas que parecem incansáveis. Entregam antes do prazo, assumem mais do que pediram e ainda dizem “deixa que eu faço”. Por fora, isso pode soar como dedicação. Por dentro, muitas vezes, é uma tentativa de não sentir. O vício em trabalho não é gostar do que faz; é precisar trabalhar para se manter de pé, como se parar fosse perigoso.
Quando trabalhar vira anestesia
O trabalho pode dar estrutura, reconhecimento e uma sensação de utilidade. O problema começa quando ele vira anestésico para emoções difíceis: solidão, insegurança, tristeza, raiva ou medo. Em vez de encarar conversas e decisões pessoais, a pessoa se mantém ocupada. A agenda cheia funciona como barreira: enquanto há tarefas, não há silêncio.
Esse padrão também pode nascer de histórias antigas. Quem recebeu afeto só quando performava bem pode confundir amor com resultado. A produtividade, então, vira uma forma de pertencer e evitar rejeição.
Sinais que costumam aparecer
Nem sempre o excesso é evidente, porque muita gente aplaude quem faz muito. Ainda assim, alguns sinais são frequentes: irritação quando algo atrasa, culpa ao descansar, dificuldade de tirar férias sem levar pendências e sensação de vazio quando não há demanda. A pessoa pode ficar inquieta em momentos simples, como um almoço sem pressa.
Outro alerta é o corpo cobrando. Insônia, tensão no pescoço, dores de cabeça, gastrite, taquicardia e cansaço constante podem surgir. O humor também muda: impaciência, explosões, choro inesperado ou apatia. Em casa, o contato com quem ama vira rápido e funcional, como se relações fossem mais um item da lista.
O preço escondido da “alta performance”
Trabalhar demais tem custo emocional. A criatividade diminui, a tolerância a frustrações cai e a mente fica presa em urgências. Aos poucos, a vida pessoal encolhe: hobbies desaparecem, amizades ficam para depois, a alimentação vira improviso e o sono perde qualidade. Mesmo com conquistas, a satisfação dura pouco; logo surge outra meta, como se a alegria precisasse ser merecida o tempo inteiro.
Há também um risco: quando o trabalho é usado para fugir, qualquer ameaça a ele — uma crítica, uma mudança de equipe, um projeto que falha — vira abalo profundo. A autoestima fica dependente de desempenho, e isso desgasta por dentro, apesar da aparência de controle.
Como começar a sair do ciclo
A saída não é largar tudo de uma vez, e sim recuperar escolhas. Um exercício inicial é mapear em quais momentos o impulso de trabalhar aparece com mais força. É quando você fica ansioso? Quando surge um conflito? Identificar o gatilho dá clareza.
Depois, crie pausas pequenas e consistentes. Dez minutos de caminhada, um jantar sem telas, uma leitura curta. O objetivo é treinar o corpo a tolerar descanso sem culpa. Outra estratégia é estabelecer limites concretos: horário para encerrar, dias sem mensagens e prioridade real para sono. Limites não são falta de compromisso; são proteção.
Quando buscar ajuda
Se a pessoa tenta reduzir e não consegue, ou se há sofrimento intenso, vale procurar apoio profissional. Psicoterapia ajuda a entender o que o excesso está encobrindo e a construir novas formas de lidar com emoções. Em alguns casos, uma avaliação médica pode ser necessária, especialmente quando há ansiedade marcante, sintomas depressivos ou crises de pânico. Para quem está com rotina apertada, pode ser um alívio marcar psiquiatra online e iniciar um acompanhamento que se encaixe melhor na agenda.
Trabalhar pode ser fonte de orgulho, mas não deve ser esconderijo. Quando a produtividade vira fuga, o corpo e a mente pedem a mesma coisa: espaço para sentir, respirar e viver.
Isso começa com pequenos passos diários.

